domingo, 5 de janeiro de 2014

A TORRE DE DONA CHAMA ESTÁ MORTA!





Uma terra que não sabe preservar as suas tradições e a sua cultura, está morta ou, pelo menos, moribunda.
Uma terra que esqueceu a sua importância e que menospreza tudo o que os seus antepassados construíram já não vive, embora, porventura, se esforce por sobreviver.
A “Festa dos Caretos” mereceu, ao longo dos tempos, atenção de estudiosos e artistas sem qualquer particular ligação à Torre de Dona Chama.
Os estudos da austríaca Barbara Alge ou as performances e pinturas do artista João Vieira são exemplo da importância cultural e etnográfica reconhecida à “Festa dos Caretos”.
Ao invés, os de Torre de Dona Chama, ao longo dos últimos anos, têm negligenciado esse ancestral evento, reduzindo-o a uma noite de copos e manifestações carnavalescas de gosto duvidoso e a uma desajeitada procissão em que se disparam uns tiros para o ar e se incendeia um quadrado de esferovite.
Tudo sem qualquer rigor histórico ou sentido da tradição, sem que a maior parte das personagens participantes saiba, em rigor, o significado dos seus improvisados gestos.
E a culpa não é das várias comissões que, ao seu jeito, têm tentado manter a festa viva, fazendo o que podem e sabem.
O problema reside na completa ausência de agentes culturais que trabalhem, com seriedade e rigor, as tradições da terra.
O problema está na falta de comprometimento com a sua terra daqueles que a vida melhor apetrechou.
Quantos jovens licenciados a Torre de Dona Chama gerou?
Sendo muitos, porque permitem que esteja moribunda a única associação cultural existente na Torre de Dona Chama?
Porque não põem os seus diversificados saberes ao dispor de uma associação cultural digna desse nome?
O problema não é de dinheiro ou de falta de espaços.
Exemplo disso foi, há alguns anos, a forma como se desperdiçou o contributo de um conterrâneo que doou um grande conjunto de bombos, os quais, por não terem sido entregues a uma entidade responsável, foram, um a um, destruídos por aqueles que os deviam preservar.
O problema reside nos grupos e grupelhos que a vila de Torre de Dona Chama é fértil em gerar, provocando a desunião e a desmotivação de alguns que gostariam de contribuir para que a terra fosse minimamente activa culturalmente.
A cultura não se constrói com slogans ou com sarjas a servir de museus.
Os “caretos” morreram na Torre de Dona Chama!
A Torre poderia aprender com os exemplos de terras mais pequenas, como Podence, em que se soube trabalhar um produto cultural, em todas as suas vertentes.
Na Torre de Dona Chama prefere-se trazer para as suas festas as escolas de samba ou os freestyle’s que nada têm a ver com a cultura local e apenas a secundarizam.




O primeiro post deste blog reproduziu um poema de Augusto Gil que fala sobre o encanto do nome de Torre de Dona Chama.
É por aí que temos que ir.
A lendária moura “Dona Chama” é a melhor ideia que a Torre de Dona Chama pode promover.
A “Festa dos Caretos” deve cingir-se àquilo que sempre foi na sua essência: por um lado, a sátira social expressa no “deitar os jogos à praça”; por outro lado, a luta entre cristãos e mouros.
Mas deve ser trabalhada.
Nada se faz sem estudo e planeamento.
Estude-se o que mais há de tradicional na festa.
Planeie-se a execução dos tempos festivos e a “Festa dos Caretos” renascerá.
Há gente que vive na Torre de Dona Chama que gostava de contribuir para isso.
Muitos outros a vida levou-os para longe mas, nem por isso, desdenhariam também poder contribuir.
As redes sociais podem ser um veículo para algumas ideias germinarem e serem partilhadas entre todos.
Os torreenses, residentes ou não, têm o dever de ressuscitar a Torre de Dona Chama.

O futuro dirá se o querem fazer.