domingo, 30 de setembro de 2012

A Imprensa Torreense no Alvor Republicano - Parte II


Jornal “Éco de D. Chama”


Após o fim da publicação do jornal “Torre D. Chama”, em 1913, em 21.03.1915, é editado o 1º número do “Éco de D. Chama”.
Esse novo projecto teve como proprietário José Augusto Figueiredo, como administrador José Pereira de Sousa e Director (até ao nº 17) Carolino Gonçalves, sendo redactores António Gonçalves e Francisco Conceição Pires.

Com periodicidade tendencialmente semanal, teve, no seu início, uma posição assumidamente independente, porventura, pretendendo contrastar com a perspectiva alinhada que o “Torre D. Chama” teve nos seus últimos números.


"Éco de D. Chama" - Edição nº 1
Vale a pena aqui citar alguns excertos do “editorial” do 1º número:

Há tempos que acariciamos a ideia de dotar a nossa terra com uma publicação periodica que viesse satisfazer uma das multiplas pretensões que podem justamente ter centenas de famílias, nas quaes um orvalhosinho de instrucção já rahia e que habitam agrapadas neste pequeno torrão que nos foi berço. (…)
Ocupar-nos-hemos de todos os assumptos que directa ou indirectamente se prendam com os interesses moraes e materiaes da nossa villa, como economia, agricultura, commercio e industria; e com nosco podem contar os oprimidos e os que sejam desatendidos injustamente e falaremos de tal forma alto que o echo da nossa voz vá de quebrada em quebrada até chegar aos ouvidos do chefe supremo da Nação, se tanto for necessario. (…)

A politica de facção obriga a dizer-se algumas vezes o que não se sente, e pelas ligações partidárias, invocando-se a disciplina, chega-se, mesmo que haja repugnancia, até á ignominia. Dessas peias estamos nós livres, graças a Deus.”

Tal independência foi ainda invocada no edição nº 2 (28.03.1915):

A fundação do semanário “teve tão sómente em vista advogar, livre de paixões politicas e prisões partidárias, os interesses da nossa nação e desta populosa vila, parte integrante daquela.

Todavia, esta independência apenas se manteve durante 17 edições, já que no nº 18, o jornal assumia à adesão à causa evolucionista:

Passa hôje a uma nova fase o nosso jornal. Vai enfileirar ao lado daqueles que defendem, atravez de todos os obstáculos, uma causa nobre: - a salvação do nosso Portugal -; vai enfileirar ao lado do Partido Republicano Evolucionista (…)
Resolvemos, pois, passar o nosso semanário para o Partido Evolucionista, para nos defendermos e defendermos o nosso querido Partido, de que é chefe, o Dr. Antonio José de Almeida, honra e gloria da nossa raça lusa!

A’vante, pois, pelo Partido Republicano Evolucionista.

"Éco de D. Chama" - Edição nº 18
  

Esta evolução do jornal vislumbra-se ao longo da linha editorial do jornal, marcada nos seus primeiros números, por questões locais, para, após a assunção do alinhamento político, pontificarem os artigos de política nacional, de forte cunho partidário.

Da primeira fase do jornal, destacam-se rubricas como a “Secção Agricola”, que contou com a colaboração de Antonio de Moura Pegado, director da Estação do Fomento Agrícola Transmontana e a dos “Preços dos géneros alimentícios”, praticados na Feira da Torre.
Sobre esta questão das vendas na feira, daremos conta mais tarde, quando nos dedicarmos ao assunto, que merece superior destaque, das Feiras de Torre de Dona Chama.
Comum a todas edições do jornal é uma secção literária, da qual, aleatoriamente, reproduzimos dois dos muitos poemas editados ao longo dos (pelo menos) 25 números do "Éco":
Secção literária - Edição nº 3
Ainda presente a todas as edições, é a página publicitária, na qual se referem algumas das casas comerciais de Torre de D. Chama, vila que, à época, tinha "dois mil habitantes aproximadamente e comercialmente ocupa o primeiro lugar no concelho de Mirandela" - nº 1 do "Éco". 
Publicidade - Edição nº 8
Relativamente às questões locais, deixamos aqui alguns excertos de notícias publicadas no “Éco de D. Chama”:

Logo na edição nº 1 (21.03.1915), em artigo intitulado “Assuntos Locais”, foi retomada a questão do edifício escolar que já havia ocupado algumas páginas do anterior jornal “Torre D. Chama”:

Existe nesta vila um edifício escolar em construção. Ha mais de seis anos que ali os trabalhos estão paralisados dando o resultado do referido edifício estar numa demolição constante em virtude de não estar coberto, nem ter vidros nem janelas.”

Tal assunto foi retomado no nº 4 do jornal (18.04.1915):

Mais uma vêz vimos solicitar que o edifício escolar desta vila seja acabado de construir pois não o sendo no mais curto praso, este edifício está numa ruina continua que é devido a não estar completamente telhado, não ter vidros nas janelas e não estar caiado.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 4


Ainda no nº 1 do “Éco”, dá-se conta da tomada de posse, como secretário da administração do concelho de Mirandela do “nosso querido amigo e presado camarada Antonio Gonçalves”.

No nº 2 do “Éco” (11.04.2015) noticia-se a seguinte nomeação:

Foi nomeado regedor substituto desta vila o nosso amigo Sr. José Alexandre Nogueira”.

Na edição nº 3 (11.04.1915), referenciam-se o seguinte movimento de Registo Civil:

No posto do Registo Civil desta vila efectuaram-se, durante o mês de Março findo, os seguintes registos:
De nascimento, sexo masculino ----7
Idem sexo feminino ------------------ 3
Obitos --------------------------------- 4
Averbamentos de óbito ------------- 1


As primeiras referências à Grande Guerra (a designação 1ª Guerra Mundial surge apenas depois do surgimento da 2ª) surgem nº 4 do “Éco” 18.04.1915), com um pequeno apontamento na rubrica “Boletim Elegante”:

Avisado pelo consul francez na cidade do Porto, para ser alistado no exercito da sua nação, partiu das minas de Ervedosa para Pariz o nosso simpatico e inteligente amigo Sr. Armand Maillet, filho do ilustre engenheiro – director interino das referidas minas.


Logo na edição seguinte (25.04.1915), o assunto é retomado, novamente relacionado com as minas de Ervedosa:

Após um prolongado interregno, interregno que foi motivado pelo actual conflito europeu, encontram-se novamente em laboração estas importantes minas, de que é director geral Mr. Louis Ourth e engenheiro chefe da exploração o nosso presado e ilustre amigo, Mr. François Carpentier, actualmente nas linhas de fogo francesas. Por tal motivo, foi nomeado director interino da exploração o tambem nosso amigo e inteligente engenheiro, Mr. Fernand Millet.
Logo que nesta vila se teve conhecimento da ordem para dar principio aos trabalhos, houve grande regosijo, especialmente da parte dos operarios desempregados, que eram em grande numero.






Após alguns números em que a questão esteve ausente, a edição nº 12 (13.06.1915) retoma-a:

De dia para dia cresce o interesse pelo drama sangrento, que se está desenrolando na maior parte da Europa, iniciado, ou para melhor dizer, provocado pelo militarismo e selvagismo alemão. A intervenção da Italia na guerra traz bastante intrigada a curiosidade publica, porque será devido á intervenção desta potencia que mais rapidamente se definirá a questão.
Impossível se torna inserirmos tudo quanto se prende com o assunto, procuraremos no entanto, registar, neste semanário, o que mais sensacional vai ocorrendo, para ilucidar os nossos leitores; embora as noticias relativamente a esta causa não sejam muito recentes; mas fazemos assim porque alguns dos nossos leitores, principalmente os nosso visinhos, não assinam outro jornal, além do “Éco de D. Chama.”
"Éco de D. Chama" - Edição nº 12


Actualizando informação, o nº 16 do “Éco”, com o título “Guerra na Europa”, faz o “resumo da ultima semana de guerra”:

A 47ª semana de guerra, que regista o aniversario do assassinato do principe herdeiro da Austria, em Sarajevo, nada regista de decisivo, infelizmente. O mais importante resume-se nisto:
França e Belgica – Confirma-se a vitória dos aliados no Labirinto. De resto, encontros em toda a linha ocidental, mas sem nenhuma modificação importante na situação dos beligerantes.

Italia – Os italianos continuam o seu avanço lentamente devido às dificuldades do terreno, nos montes, onde ainda encontram neve que lhes impede a marcha. (…)
Guerra no ar – Os francezes realisaram um raid aério sobre a fabrica de zepelins em Friedrichshonen, sendo bem sucedidos.


Na edição 17 (18.07.1915), actualiza-se também a informação sobre a Grande Guerra, o que se repete no nº 18 do “Éco” (25.07.1915), através de uma carta, enviada pelo acima já referido François Carpentier ao Director.

Todavia, por razão que se desconhece, mas que não deixará de estar relacionado com o alinhamento político-partidário do jornal, a partir dessa mesma edição nº 18, o assunto não mais voltou às suas páginas.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 17

Voltando às questões locais focadas nos artigos do jornal, o nº 2 do jornal (28.03.1915) noticia a realização de uma “kermesse”, “em beneficio do «Club Recreativo da Torre»”, tendo em vista “beneficiar as creanças pobres desta vila e abrir um curso noturno para adultos”.
Mas este amor pela instrução, não é d’agora, pois o «Club Recreativo da Torre», logo após a sua fundação, que foi em 1908, abrira uma verba anual de 11.000 reis para compra de livros, verba que tem tido o seu devido destino, sendo os livros entregues ás respectivas professoras.”

Sobre o Club, a edição nº 5 do jornal (25.04.1915) noticiou:

Por intermedio do nosso camarada, José Pereira de Sousa, acaba este Club de fazer a aquisição de um belíssimo bilhar artístico (…) de construção moderna, com tabelas «monarch-match», umas das melhores que existem (…).”

Ainda sobre os assuntos locais, o nº 4 do “Éco” (18.04.1915), num artigo com esse mesmo título, refere:

Ha aproximadamente dez anos que se tentou canalizar a agua para esta vila, para abastecimento público. Paralizaram os trabalhos dando o resultado de todas as valas, em que deviam ser assentes os canos de ferro para conduzir a agua ao ponto marcado, estarem completamente entupidas.
Devido a isto, a agua corre desorientadamente formando na esplanada do prado um verdadeiro pântano que ocasiona uma exalação de gazes antegiénicos e indubitavelmente a absorpção destes gazes influi para que na população desta vila haja frequentes epedemias de pústulas e de variôlas, como sucede todos os anos principalmente no verão.”


Também a edição nº 5 (25.04.1915), sobre o título “Melhoramentos Locais”, noticia:

São muitos os melhoramentos que esta terra carece e é digna. Além dos já encetados, como o edifício escolar e a canalisação das aguas para abastecimento do nosso consumo, para a conclusão dos quais, que nos é urgentemente necessaria, temos chamado algumas vezes a atenção dos srs. Ministros da instrução e do fomento, existe um, para nós superior a todos, de que hoje resolvemos pela primeira vez falar.
É ele a creação dum concelho nesta populosa e hospitaleira freguesia.


"Éco de D. Chama" - Edição nº 5



No nº 8 do jornal (16.05.1915), a “Junta de Paroquia”, já objecto de crítica no anterior “Torre D. Chama”, é uma vez mais furiosamente posta em causa, a propósito da iluminação pública, para a qual a “extinta camara de Mirandela” estava na disposição de “abrir uma verba anual de 30 a 50 escudos para sustento da iluminação”, todavia, afirma-se que “se tal verba não entrou no orçamento”, foi devido “ao nenhum zelo e muito desleixo da Junta de Paroquia desta localidade”, a qual “não reuniu, que nós saibamos, uma unica vez. Nada tem feito, nada fará. Nem as contas, sequer conforme a lei résa, foram expostas ao publico! Um desleixo nunca visto, um desleixo vergonhoso”.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 8



Como acima dissemos, no nº 18, o semanário assume a sua adesão à causa evolucionista.
A partir de tal edição, António Gonçalves assumiu o cargo de Director do Jornal, deixando de figurar no cabeçalho qualquer referência sobre redactores.
Não esquecidos do “editorial” do nº 1 do “Éco”, os responsáveis do jornal reconhecem que tal comprometimento partidário os vai levar para outros caminhos, diversos do inicialmente traçado, de teor local e de defesa dos interesses da terra.
Ainda assim, escreveu-se na edição nº 19 (1.08.1915):
“«O Eco de D. Chama» pelo facto de enfileirar nas linhas de combate contra aqueles que a Patria de Camões pereça num abismo de falcatruas e perseguições, não abdica do seu primitivo programa, - pugnando incessantemente pelos interesses e melhoramentos desta vila.
Porém, as edições seguintes encontram-se praticamente despidas de questões locais, primando por artigos, de âmbito nacional, e por uma rubrica, de guerrilha partidária, intitulada “Rosna-se”, cheia de meias palavras e segundos sentidos, praticamente incompreensível para quem se encontra historicamente deslocado.
Todavia, do nº 25 (12.09.1915), provavelmente a última edição do “Éco de D. Chama” (não tivemos acesso a qualquer outra edição posterior), destacamos a notícia sobre a Festividade do Senhor dos Passos:
No passado domingo, 29 de Agosto, teve lugar nesta vila a festividade ao Senhor dos Passos, que revestiu grande imponencia.
No sabado houve um arraial onde a filarmonica desta vila executou o seu variado e lindo reportorio. (…)
No domingo houve uma missa solene, cantada pelo Reverendo Abade desta freguesia, snr. Antonio Augusto Moás, e sermão pelo distinto orador sagrado snr. Conego José Maria Ferreira (…).”

 "Éco de D. Chama" - Edição nº 25

 

Nota final:


Folheamos aqui algumas edições dos Jornais "Torre D. Chama" e "Éco de D. Chama".
Não deixa de impressionar, desde logo, a existência, num curto espaço de tempo, de dois projectos, com pessoas diferentes, que deixam, ao leitor de hoje, uma visão algo cosmopolita da Vila de Torre de Dona Chama, no início de um século XX, marcado pela proclamação da República e pelas lutas partidárias que lhe foram inerentes.
Ressalta ainda uma certa imagem aristocrática de uma terra que, apesar de ter perdido a sua condição de concelho, procurava manter a sua importância local e ainda rivalizava com a sede de concelho, em termos comerciais.






 "Casa comercial António Gonçalves" - retirado de  http://postaisportugal.canalblog.com/


domingo, 23 de setembro de 2012

A Imprensa Torreense no Alvor Republicano – Parte I

Enquadramento histórico-cultural:

 

Os finais do século XIX e início do século XX ficaram marcados pela abolição da censura a livros e a periódicos e pela proclamação da liberdade da imprensa.

Consequentemente, o número de publicações multiplicou-se, detendo Portugal, no início de novecentos, um lugar de relevo entre os países do mundo, quer no que à taxa proporcional de periódicos diz respeito, quer mesmo ao seu número absoluto.

Os jornais e as revistas desse tempo revelam uma elegância de escrita e uma qualidade de estilo que impressiona até nos dias de hoje.

Enquadramento histórico-político:

Deposta a monarquia e proclamada a República, em 5 de Outubro de 1910, foi das mãos do Partido Republicano que surgiu o Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga (cujos verdadeiros chefes eram António José de Almeida, Afonso Costa, Bernardino Machado e, mais tarde, Brito Camacho) e nasceu a Assembleia Nacional Constituinte.

Às eleições legislativas de Maio de 1911 quase só concorreram candidatos do Partido Republicano.

Todavia, as divergências no Governo, rapidamente conduziram à cisão do Partido Republicano.

Assim, entre Setembro de 1911 e Fevereiro de 1912, lançaram-se as bases dos três primeiros partidos do republicanismo constitucional: Partido Republicano Português (democráticos), de Afonso Costa, que permaneceu até ao fim do regime político, Partido Republicano Evolucionista (evolucionistas), de António José de Almeida, e União Republicana (unionistas), de Manuel Brito Camacho, tendo estes dois últimos se extinguido em Setembro de 1919.

Enquadramento regional da Torre de Dona Chama:

No início do século XX, a Torre era uma terra de relativa importância no Nordeste Transmontano.

Havia perdido o seu concelho, em 1855, mas mantinha a condição de segunda terra mais importante do concelho de Mirandela, assente na sua vasta produção agrícola e de ofícios, os quais transacionava, com grande pujança, nas suas duas feiras mensais (dos 5 e dos 17) e nas anuais dos Santos e dos Reis, referenciais no comércio regional, mormente, no que concerne ao comércio do gado.

Beneficiava do seu posicionamento geográfico, distando cerca de 25 quilómetros das sedes de concelho mais próximas, permanecendo como referência local para as terras circunvizinhas.

Para isso contribuía o facto de por si passar a estrada que ligava Mirandela a Bragança e possuir uma estação telégrafo-postal.

Possuía ainda um conjunto de reputadas casas comerciais.

 

Publicidade do Jornal "A Torre D. Chama"

 Imprensa local:

 Do que chegou ao nosso conhecimento, o 1º jornal local do século XX foi o designado “Torre D. Chama”, fundado, ao que supomos (não tivemos acesso aos 6 primeiros números) em Fevereiro de 1911, sendo Antonio D’Assumpção Teixeira, inicialmente, o seu director, proprietário, administrador e editor.

 

 

1ª Página da Edição nº 7

A publicação do Jornal “Torre D. Chama” foi suspensa em 30.06.1911, vindo a retomar-se em 1.02.1913, com a edição nº 9, mantendo-se Antonio D’Assumpção Teixeira como director e proprietário, mas passando a ser Manuel Luiz D’Assumpção Teixeira o administrador e editor.

1ª Página da Edição nº 9

 

Vale a pena rever aqui um excerto editorial dessa edição:

“Reaparece hoje o nosso modesto jornal, continuando com a mesma orientação que tinha na epoca, em que, por certos motivos, suspendeu a sua publicação. O seu reaparecimento não traduz uma vaidade de quem hoje vem de novo á arena da imprensa. E antes, acima de tudo, o intento de fazer alguma cousa de útil e de bom em prol da Republica, que redimiu a nossa Patria, e da terra amada, que nos foi berço, que nos determinou a terçar armas no campo do jornalismo”.

Assumindo-se, inicialmente, como “Jornal Independente”, na edição nº 14, de 15.04.1913, proclama a sua filiação no Partido Republicano Portuguez, passando a ostentar no seu cabeçalho a designação de “Jornal Democrático”.

 

1ª Página da Edição nº 14

Justificou-se, assim, tal opção política:

“Terminou com a independencia que vinha sustentando desde a sua fundação e filiou-se no Partido Republicano Portuguez, que é o único partido que respeita e segue o velho programa que sempre norteou os bons republicanos, a nossa “Torre D. Chama”.

Tendencialmente quinzenal (algumas edições saíram atrasadas), o conteúdo do jornal oscilava entre questões de teor nacional, fruto da intensa luta política que o país vivia e à qual nem o nordeste transmontano permanecia indiferente e questões locais, de defesa da terra, registando ainda uma intensa participação de colaboradores, residentes noutras localidades, designadamente, no Porto e Bragança.

Relativamente às questões locais, reconhecidamente, por vezes esquecidas, destacamos os excertos de artigos, da edição nº 8, de 30.06.1911:

“Muitos amigos e leitores teem estranhado com palavras de justa censúra misturada de indignação que não tenhamos dedicado uns momentos de attenção, expressa n’este obscuro semanário, ao estado de abandono a que inflismente foi votada esta nossa amada terra (…)”.

“(…) esta terra só começou a conhecer a acção benéfica dos governos, quando esse homem de bem, grande patriota e eminente estadista Emídio Navarro trabalhou denodadamente, mesmo com sacrifício na imprensa, no parlamento e no governo pela construcção da estrada que todos os dias trilhamos e nos liga com Bragança e Mirandella”.

Dizia-se ainda que a apontada beneficiação trouxe

“(…) como consequencia logica, dedusida da nossa bella situação geográfica, mais dois importantes melhoramentos – uma estação telegrapho postal e uma corrida com o caminho de ferro, na estação de Mirandella”.

Referenciava-se ainda que “toda a região” reclama

“A creação d’uma comarca, ou pelo menos de um concelho que era de immensa e indisivel commodidade para nós e povos circunvizinhos, que ficamos, no melhor dos calculos, a 25 kilometros das sedes dos respectivos concelhos(…)”.

 

1ª Página da Edição nº 8

No mesmo artigo da edição nº 8 outros melhoramentos eram reclamados, mormente a conclusão da escola primária:

“(…) no largo da feira, mesmo à beirinha da estrada uma casa construída pelo plano Bermudes e não está concluida por faltarem os trabalhos de trolha e pouco mais, cuja casa disem é destinada a escola primaria dos dois sexos”.

A esta questão havia de voltar o Jornal, no seu nº 13, de 1.04.1913:

“Achava conveniente que muito respeitosamente se representasse ao Ex.mo Ministro do Interior para que se digne dar por findo o edifício para a instrução primaria, que á oito anos lhe foi dado começo e que até hoje não se acha dado ás funções a que ia ser destinado!”

Ainda no mesmo artigo do nº 8, manifestava-se preocupação em relação ao abastecimento de água:

“Fizeram-se promessas, consumiu-se rethorica e gastaram-se alguns cobres para se dar começo á canalização d’aguas que muito esta terra carece, mas, sempre o mas, ainda não foi levada a effeito e sabe Deus quando será”.

Noutro artigo da edição nº 8, intitulado “A’ Junta de Parochia”, escrevia-se:

“Lembramos que era de grande interesse para esta villa e para as povoações que nos rodeiam, representar ao Ex.mo Governador Civil, para ver se conseguiam a que as feiras denominadas as dos Santos e Reis, as mais importantes de todo o anno, tivessem mais um dia – 5 e 6”.

Esta assunto viria a ser relembrado no nº 9, após o período de suspensão da publicação:

“São decorridos dois anos e ainda essa representação se não fez! Porquê? Por que não quizeram. Eis infelizmente a verdadeira razão. (…)

Reuna pois a comissão parochial e resolva o assunto quanto antes, prestando assim um beneficio á Torre D. Chama”.

Ficam aqui outras referências a notícias locais:

Edição nº 11, de 1.03.1913:

Na primeira página é apresentado o programa da “Festa da Arvore”, “iniciativa altamente patriotica do «Seculo Agricola», promovendo a «Festa da Arvore», em todas freguesias do país”.

Edição nº 12, de 15.03.1913:

Na primeira página é publicado um extenso artigo sobre a “Festa da Arvore”, realizada em 9.03.1913, a cuja comissão presidiu o Dr. José Alves Ferreira da Silva, “ilustrado e integro medico municipal desta terra” e da qual foi vogal, o Padre Antonio Moás, “erudito abade desta freguesia”.

 

 

1ª Página daEdição nº 12

Edição nº 13, de 1.04.1913:

Sobre a vinda da Guarda Republicana à feira:

“Para assegurar a ordem da feira do dia 5, vieram para aqui fazer serviço, alguns soldados da Guarda Republicana. Bom será que continuem a vir por aqui em todas as feiras, para que as tranzações se efetuem á vontade”.

No mesmo número, anuncia-se a seguinte nomeação, como Regedor:

“Foi nomeado Regedor desta vila e tomando posse na semana passada, o nosso amigo sr. João Bernardo. Que saiba cumprir a missão de que está incumbido, são os nossos desejos”.

Edição nº 15, de 10.05.2013:

Dá-se conta que “Foi a Lisboa tratar de assuntos políticos, o nosso querido amigo sr. Antonio Bernardo Teixeira, chefe da estação telegrafo-postal e chefe do partido democratico desta vila”.

1ª Página da Edição nº 15

 

Edição nº 16, de 1.06.1913:

Sobre a greve nas Minas de Ervedosa:

“Ha dias foi declarada a greve por todos os operários das Minas de Estanho de Ervedosa. Encontram-se já ali, para garantir a ordem, uma força de 25 praças. No dia em que enviamos os originais para Mirandela ainda a greve não tinha sido solucionada, esperando-se no entanto que ela tenha uma breve solução com honra para os dois lados”.

Sobre projecções de cinema itinerante:

“Cinema-Paté. Está funcionando nesta vila o mais importante cinematografo que tem aparecido no nosso concelho. Tem exibido varias fitas de primeiro gosto, destacando-se entre elas a Vida de Cristo e a Guerra de Italia”.

 Relativamente às questões nacionais, destaca-se a edição nº 7, de 15.05.1911, em que é publicado um artigo sobre as próximas eleições, às quais se volta a fazer referência no nº 8, numa carta de um colaborador do Porto:

“Estão realizadas em todo o paiz as eleições para as Constituintes. (…)

A Revolução triumphante de 5 de Outubro, ficou agora sancionada pelo voto livre, expontaneo e unanime de toda a nação”.

Na edição nº 16, de 1.06.2013, num artigo intitulado “A Obra do Governo”, escreveu-se:

“A obra do actual governo, tão moralisadora, tão honrada e tão benefica para a Republica, demonstra o patriotismo de quem, sacrificando-se, o pratica e prova a pureza das suas convicções”.

No que concerne às participações de colaboradores, pela sua peculiaridade, destacamos a edição nº 7, de 15.05.1911, na qual é publicada uma carta de Bragança que anuncia que, no dia 10 de Maio, no Tribunal de Bragança, foi pronunciada a primeira sentença de divórcio:

“O mau é começarem… daqui a pouco é moda, e depois, caro leitor, depois… - le monde marche – todos hão de querer segui-la”.

Mas a mais importante colaboração, pelo seu interesse histórico foi, sem dúvida, a do Padre Francisco Manuel Alves (O Abade de Baçal), com a rubrica “A Torre D.Chama – Traços Historicos”, que iniciou na edição nº 9 e levou até à edição nº 14.

Pela sua importância e valor histórico, falaremos nestas páginas, oportunamente, sobre os conteúdos em causa.

Desconhecemos de que forma terminou a sua edição o Jornal “Torre D. Chama”, sabendo apenas que foi publicado, pelo menos, até ao nº 16, de 1.06.1913 (apenas tivemos acesso até esta edição), sendo certo que, em 21.03.1915, teve lugar a 1ª edição do semanário “Éco de D. Chama”.

Sobre o Jornal "Éco de D. Chama" falaremos na 2ª parte da “A Imprensa Torreense no Alvor Republicano”.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Património Classificado


Ponte da Pedra

Monumento Nacional:


Ponte da Pedra
Ponte romana sobre o rio Tuela.
Situada a 3 Km a oeste da Vila de Torre de Dona Chama.
Integrada na E.N. 206, que liga Torre de Dona Chama a Valpaços.

Classificada como “monumento nacional” pelo Decreto n.º 28/82, de 26 de Fevereiro.

  




Imóveis de Interesse Público:

 


Monte São Brás

São Brás


Povoado fortificado, situado no topo aplanado de monte sobranceiro à Vila de Torre de Dona Chama.

Classificado como “imóvel de interesse público” pelo Decreto n.º 40:361 de 20 de Outubro de 1955.









Pelourinho
Pelourinho


Situado no Largo do Pelourinho (popularmente conhecido por Largo da Berrôa, por aí existir também uma berrôa).

Classificado como “imóvel de interesse público” pelo Decreto n.º 23:122, de 11 de Outubro de 1933.








A importância do património cultural é por todos reconhecida.
A sua perservação e conservação são tarefa do Estado.
Não pode deixar de se lamentar o desleixo e quase abandono a que se encontra votado o património acima elencado, mormente a Ponte da Pedra, que continua a ser usada no tráfego rodoviário, tendo sido danificada, recentemente, na sequência de dois alegados acidentes.
Entretanto reparada, de modo mais que duvidoso, permanece incógnita, não sendo identificada por quem por lá passa.
A ausência de qualquer placa informativa e sinalética é extensiva, quer ao Castro de São Brás, quer ao Pelourinho, isto, apesar do artigo 33º, nº 1 do DL 309/2009, de 23.10, prever que "os bens imóveis classificados são identificados através de placa informativa e sinalética adequadas para o efeito".
A Ponte da Pedra, seguramente romana, sendo o mais importante monumento nacional do concelho de Mirandela, merecia a definição de uma zona especial de protecção, prevista no artigo 41º do citado diploma, devendo ser poupada ao trânsito rodoviário.
À atenção dos poderes instituídos... 


Voltaremos, nestas páginas, ao enquadramento histórico-geográfico do património classificado, acima elencado.