domingo, 30 de setembro de 2012

A Imprensa Torreense no Alvor Republicano - Parte II


Jornal “Éco de D. Chama”


Após o fim da publicação do jornal “Torre D. Chama”, em 1913, em 21.03.1915, é editado o 1º número do “Éco de D. Chama”.
Esse novo projecto teve como proprietário José Augusto Figueiredo, como administrador José Pereira de Sousa e Director (até ao nº 17) Carolino Gonçalves, sendo redactores António Gonçalves e Francisco Conceição Pires.

Com periodicidade tendencialmente semanal, teve, no seu início, uma posição assumidamente independente, porventura, pretendendo contrastar com a perspectiva alinhada que o “Torre D. Chama” teve nos seus últimos números.


"Éco de D. Chama" - Edição nº 1
Vale a pena aqui citar alguns excertos do “editorial” do 1º número:

Há tempos que acariciamos a ideia de dotar a nossa terra com uma publicação periodica que viesse satisfazer uma das multiplas pretensões que podem justamente ter centenas de famílias, nas quaes um orvalhosinho de instrucção já rahia e que habitam agrapadas neste pequeno torrão que nos foi berço. (…)
Ocupar-nos-hemos de todos os assumptos que directa ou indirectamente se prendam com os interesses moraes e materiaes da nossa villa, como economia, agricultura, commercio e industria; e com nosco podem contar os oprimidos e os que sejam desatendidos injustamente e falaremos de tal forma alto que o echo da nossa voz vá de quebrada em quebrada até chegar aos ouvidos do chefe supremo da Nação, se tanto for necessario. (…)

A politica de facção obriga a dizer-se algumas vezes o que não se sente, e pelas ligações partidárias, invocando-se a disciplina, chega-se, mesmo que haja repugnancia, até á ignominia. Dessas peias estamos nós livres, graças a Deus.”

Tal independência foi ainda invocada no edição nº 2 (28.03.1915):

A fundação do semanário “teve tão sómente em vista advogar, livre de paixões politicas e prisões partidárias, os interesses da nossa nação e desta populosa vila, parte integrante daquela.

Todavia, esta independência apenas se manteve durante 17 edições, já que no nº 18, o jornal assumia à adesão à causa evolucionista:

Passa hôje a uma nova fase o nosso jornal. Vai enfileirar ao lado daqueles que defendem, atravez de todos os obstáculos, uma causa nobre: - a salvação do nosso Portugal -; vai enfileirar ao lado do Partido Republicano Evolucionista (…)
Resolvemos, pois, passar o nosso semanário para o Partido Evolucionista, para nos defendermos e defendermos o nosso querido Partido, de que é chefe, o Dr. Antonio José de Almeida, honra e gloria da nossa raça lusa!

A’vante, pois, pelo Partido Republicano Evolucionista.

"Éco de D. Chama" - Edição nº 18
  

Esta evolução do jornal vislumbra-se ao longo da linha editorial do jornal, marcada nos seus primeiros números, por questões locais, para, após a assunção do alinhamento político, pontificarem os artigos de política nacional, de forte cunho partidário.

Da primeira fase do jornal, destacam-se rubricas como a “Secção Agricola”, que contou com a colaboração de Antonio de Moura Pegado, director da Estação do Fomento Agrícola Transmontana e a dos “Preços dos géneros alimentícios”, praticados na Feira da Torre.
Sobre esta questão das vendas na feira, daremos conta mais tarde, quando nos dedicarmos ao assunto, que merece superior destaque, das Feiras de Torre de Dona Chama.
Comum a todas edições do jornal é uma secção literária, da qual, aleatoriamente, reproduzimos dois dos muitos poemas editados ao longo dos (pelo menos) 25 números do "Éco":
Secção literária - Edição nº 3
Ainda presente a todas as edições, é a página publicitária, na qual se referem algumas das casas comerciais de Torre de D. Chama, vila que, à época, tinha "dois mil habitantes aproximadamente e comercialmente ocupa o primeiro lugar no concelho de Mirandela" - nº 1 do "Éco". 
Publicidade - Edição nº 8
Relativamente às questões locais, deixamos aqui alguns excertos de notícias publicadas no “Éco de D. Chama”:

Logo na edição nº 1 (21.03.1915), em artigo intitulado “Assuntos Locais”, foi retomada a questão do edifício escolar que já havia ocupado algumas páginas do anterior jornal “Torre D. Chama”:

Existe nesta vila um edifício escolar em construção. Ha mais de seis anos que ali os trabalhos estão paralisados dando o resultado do referido edifício estar numa demolição constante em virtude de não estar coberto, nem ter vidros nem janelas.”

Tal assunto foi retomado no nº 4 do jornal (18.04.1915):

Mais uma vêz vimos solicitar que o edifício escolar desta vila seja acabado de construir pois não o sendo no mais curto praso, este edifício está numa ruina continua que é devido a não estar completamente telhado, não ter vidros nas janelas e não estar caiado.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 4


Ainda no nº 1 do “Éco”, dá-se conta da tomada de posse, como secretário da administração do concelho de Mirandela do “nosso querido amigo e presado camarada Antonio Gonçalves”.

No nº 2 do “Éco” (11.04.2015) noticia-se a seguinte nomeação:

Foi nomeado regedor substituto desta vila o nosso amigo Sr. José Alexandre Nogueira”.

Na edição nº 3 (11.04.1915), referenciam-se o seguinte movimento de Registo Civil:

No posto do Registo Civil desta vila efectuaram-se, durante o mês de Março findo, os seguintes registos:
De nascimento, sexo masculino ----7
Idem sexo feminino ------------------ 3
Obitos --------------------------------- 4
Averbamentos de óbito ------------- 1


As primeiras referências à Grande Guerra (a designação 1ª Guerra Mundial surge apenas depois do surgimento da 2ª) surgem nº 4 do “Éco” 18.04.1915), com um pequeno apontamento na rubrica “Boletim Elegante”:

Avisado pelo consul francez na cidade do Porto, para ser alistado no exercito da sua nação, partiu das minas de Ervedosa para Pariz o nosso simpatico e inteligente amigo Sr. Armand Maillet, filho do ilustre engenheiro – director interino das referidas minas.


Logo na edição seguinte (25.04.1915), o assunto é retomado, novamente relacionado com as minas de Ervedosa:

Após um prolongado interregno, interregno que foi motivado pelo actual conflito europeu, encontram-se novamente em laboração estas importantes minas, de que é director geral Mr. Louis Ourth e engenheiro chefe da exploração o nosso presado e ilustre amigo, Mr. François Carpentier, actualmente nas linhas de fogo francesas. Por tal motivo, foi nomeado director interino da exploração o tambem nosso amigo e inteligente engenheiro, Mr. Fernand Millet.
Logo que nesta vila se teve conhecimento da ordem para dar principio aos trabalhos, houve grande regosijo, especialmente da parte dos operarios desempregados, que eram em grande numero.






Após alguns números em que a questão esteve ausente, a edição nº 12 (13.06.1915) retoma-a:

De dia para dia cresce o interesse pelo drama sangrento, que se está desenrolando na maior parte da Europa, iniciado, ou para melhor dizer, provocado pelo militarismo e selvagismo alemão. A intervenção da Italia na guerra traz bastante intrigada a curiosidade publica, porque será devido á intervenção desta potencia que mais rapidamente se definirá a questão.
Impossível se torna inserirmos tudo quanto se prende com o assunto, procuraremos no entanto, registar, neste semanário, o que mais sensacional vai ocorrendo, para ilucidar os nossos leitores; embora as noticias relativamente a esta causa não sejam muito recentes; mas fazemos assim porque alguns dos nossos leitores, principalmente os nosso visinhos, não assinam outro jornal, além do “Éco de D. Chama.”
"Éco de D. Chama" - Edição nº 12


Actualizando informação, o nº 16 do “Éco”, com o título “Guerra na Europa”, faz o “resumo da ultima semana de guerra”:

A 47ª semana de guerra, que regista o aniversario do assassinato do principe herdeiro da Austria, em Sarajevo, nada regista de decisivo, infelizmente. O mais importante resume-se nisto:
França e Belgica – Confirma-se a vitória dos aliados no Labirinto. De resto, encontros em toda a linha ocidental, mas sem nenhuma modificação importante na situação dos beligerantes.

Italia – Os italianos continuam o seu avanço lentamente devido às dificuldades do terreno, nos montes, onde ainda encontram neve que lhes impede a marcha. (…)
Guerra no ar – Os francezes realisaram um raid aério sobre a fabrica de zepelins em Friedrichshonen, sendo bem sucedidos.


Na edição 17 (18.07.1915), actualiza-se também a informação sobre a Grande Guerra, o que se repete no nº 18 do “Éco” (25.07.1915), através de uma carta, enviada pelo acima já referido François Carpentier ao Director.

Todavia, por razão que se desconhece, mas que não deixará de estar relacionado com o alinhamento político-partidário do jornal, a partir dessa mesma edição nº 18, o assunto não mais voltou às suas páginas.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 17

Voltando às questões locais focadas nos artigos do jornal, o nº 2 do jornal (28.03.1915) noticia a realização de uma “kermesse”, “em beneficio do «Club Recreativo da Torre»”, tendo em vista “beneficiar as creanças pobres desta vila e abrir um curso noturno para adultos”.
Mas este amor pela instrução, não é d’agora, pois o «Club Recreativo da Torre», logo após a sua fundação, que foi em 1908, abrira uma verba anual de 11.000 reis para compra de livros, verba que tem tido o seu devido destino, sendo os livros entregues ás respectivas professoras.”

Sobre o Club, a edição nº 5 do jornal (25.04.1915) noticiou:

Por intermedio do nosso camarada, José Pereira de Sousa, acaba este Club de fazer a aquisição de um belíssimo bilhar artístico (…) de construção moderna, com tabelas «monarch-match», umas das melhores que existem (…).”

Ainda sobre os assuntos locais, o nº 4 do “Éco” (18.04.1915), num artigo com esse mesmo título, refere:

Ha aproximadamente dez anos que se tentou canalizar a agua para esta vila, para abastecimento público. Paralizaram os trabalhos dando o resultado de todas as valas, em que deviam ser assentes os canos de ferro para conduzir a agua ao ponto marcado, estarem completamente entupidas.
Devido a isto, a agua corre desorientadamente formando na esplanada do prado um verdadeiro pântano que ocasiona uma exalação de gazes antegiénicos e indubitavelmente a absorpção destes gazes influi para que na população desta vila haja frequentes epedemias de pústulas e de variôlas, como sucede todos os anos principalmente no verão.”


Também a edição nº 5 (25.04.1915), sobre o título “Melhoramentos Locais”, noticia:

São muitos os melhoramentos que esta terra carece e é digna. Além dos já encetados, como o edifício escolar e a canalisação das aguas para abastecimento do nosso consumo, para a conclusão dos quais, que nos é urgentemente necessaria, temos chamado algumas vezes a atenção dos srs. Ministros da instrução e do fomento, existe um, para nós superior a todos, de que hoje resolvemos pela primeira vez falar.
É ele a creação dum concelho nesta populosa e hospitaleira freguesia.


"Éco de D. Chama" - Edição nº 5



No nº 8 do jornal (16.05.1915), a “Junta de Paroquia”, já objecto de crítica no anterior “Torre D. Chama”, é uma vez mais furiosamente posta em causa, a propósito da iluminação pública, para a qual a “extinta camara de Mirandela” estava na disposição de “abrir uma verba anual de 30 a 50 escudos para sustento da iluminação”, todavia, afirma-se que “se tal verba não entrou no orçamento”, foi devido “ao nenhum zelo e muito desleixo da Junta de Paroquia desta localidade”, a qual “não reuniu, que nós saibamos, uma unica vez. Nada tem feito, nada fará. Nem as contas, sequer conforme a lei résa, foram expostas ao publico! Um desleixo nunca visto, um desleixo vergonhoso”.
"Éco de D. Chama" - Edição nº 8



Como acima dissemos, no nº 18, o semanário assume a sua adesão à causa evolucionista.
A partir de tal edição, António Gonçalves assumiu o cargo de Director do Jornal, deixando de figurar no cabeçalho qualquer referência sobre redactores.
Não esquecidos do “editorial” do nº 1 do “Éco”, os responsáveis do jornal reconhecem que tal comprometimento partidário os vai levar para outros caminhos, diversos do inicialmente traçado, de teor local e de defesa dos interesses da terra.
Ainda assim, escreveu-se na edição nº 19 (1.08.1915):
“«O Eco de D. Chama» pelo facto de enfileirar nas linhas de combate contra aqueles que a Patria de Camões pereça num abismo de falcatruas e perseguições, não abdica do seu primitivo programa, - pugnando incessantemente pelos interesses e melhoramentos desta vila.
Porém, as edições seguintes encontram-se praticamente despidas de questões locais, primando por artigos, de âmbito nacional, e por uma rubrica, de guerrilha partidária, intitulada “Rosna-se”, cheia de meias palavras e segundos sentidos, praticamente incompreensível para quem se encontra historicamente deslocado.
Todavia, do nº 25 (12.09.1915), provavelmente a última edição do “Éco de D. Chama” (não tivemos acesso a qualquer outra edição posterior), destacamos a notícia sobre a Festividade do Senhor dos Passos:
No passado domingo, 29 de Agosto, teve lugar nesta vila a festividade ao Senhor dos Passos, que revestiu grande imponencia.
No sabado houve um arraial onde a filarmonica desta vila executou o seu variado e lindo reportorio. (…)
No domingo houve uma missa solene, cantada pelo Reverendo Abade desta freguesia, snr. Antonio Augusto Moás, e sermão pelo distinto orador sagrado snr. Conego José Maria Ferreira (…).”

 "Éco de D. Chama" - Edição nº 25

 

Nota final:


Folheamos aqui algumas edições dos Jornais "Torre D. Chama" e "Éco de D. Chama".
Não deixa de impressionar, desde logo, a existência, num curto espaço de tempo, de dois projectos, com pessoas diferentes, que deixam, ao leitor de hoje, uma visão algo cosmopolita da Vila de Torre de Dona Chama, no início de um século XX, marcado pela proclamação da República e pelas lutas partidárias que lhe foram inerentes.
Ressalta ainda uma certa imagem aristocrática de uma terra que, apesar de ter perdido a sua condição de concelho, procurava manter a sua importância local e ainda rivalizava com a sede de concelho, em termos comerciais.






 "Casa comercial António Gonçalves" - retirado de  http://postaisportugal.canalblog.com/