domingo, 23 de setembro de 2012

A Imprensa Torreense no Alvor Republicano – Parte I

Enquadramento histórico-cultural:

 

Os finais do século XIX e início do século XX ficaram marcados pela abolição da censura a livros e a periódicos e pela proclamação da liberdade da imprensa.

Consequentemente, o número de publicações multiplicou-se, detendo Portugal, no início de novecentos, um lugar de relevo entre os países do mundo, quer no que à taxa proporcional de periódicos diz respeito, quer mesmo ao seu número absoluto.

Os jornais e as revistas desse tempo revelam uma elegância de escrita e uma qualidade de estilo que impressiona até nos dias de hoje.

Enquadramento histórico-político:

Deposta a monarquia e proclamada a República, em 5 de Outubro de 1910, foi das mãos do Partido Republicano que surgiu o Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga (cujos verdadeiros chefes eram António José de Almeida, Afonso Costa, Bernardino Machado e, mais tarde, Brito Camacho) e nasceu a Assembleia Nacional Constituinte.

Às eleições legislativas de Maio de 1911 quase só concorreram candidatos do Partido Republicano.

Todavia, as divergências no Governo, rapidamente conduziram à cisão do Partido Republicano.

Assim, entre Setembro de 1911 e Fevereiro de 1912, lançaram-se as bases dos três primeiros partidos do republicanismo constitucional: Partido Republicano Português (democráticos), de Afonso Costa, que permaneceu até ao fim do regime político, Partido Republicano Evolucionista (evolucionistas), de António José de Almeida, e União Republicana (unionistas), de Manuel Brito Camacho, tendo estes dois últimos se extinguido em Setembro de 1919.

Enquadramento regional da Torre de Dona Chama:

No início do século XX, a Torre era uma terra de relativa importância no Nordeste Transmontano.

Havia perdido o seu concelho, em 1855, mas mantinha a condição de segunda terra mais importante do concelho de Mirandela, assente na sua vasta produção agrícola e de ofícios, os quais transacionava, com grande pujança, nas suas duas feiras mensais (dos 5 e dos 17) e nas anuais dos Santos e dos Reis, referenciais no comércio regional, mormente, no que concerne ao comércio do gado.

Beneficiava do seu posicionamento geográfico, distando cerca de 25 quilómetros das sedes de concelho mais próximas, permanecendo como referência local para as terras circunvizinhas.

Para isso contribuía o facto de por si passar a estrada que ligava Mirandela a Bragança e possuir uma estação telégrafo-postal.

Possuía ainda um conjunto de reputadas casas comerciais.

 

Publicidade do Jornal "A Torre D. Chama"

 Imprensa local:

 Do que chegou ao nosso conhecimento, o 1º jornal local do século XX foi o designado “Torre D. Chama”, fundado, ao que supomos (não tivemos acesso aos 6 primeiros números) em Fevereiro de 1911, sendo Antonio D’Assumpção Teixeira, inicialmente, o seu director, proprietário, administrador e editor.

 

 

1ª Página da Edição nº 7

A publicação do Jornal “Torre D. Chama” foi suspensa em 30.06.1911, vindo a retomar-se em 1.02.1913, com a edição nº 9, mantendo-se Antonio D’Assumpção Teixeira como director e proprietário, mas passando a ser Manuel Luiz D’Assumpção Teixeira o administrador e editor.

1ª Página da Edição nº 9

 

Vale a pena rever aqui um excerto editorial dessa edição:

“Reaparece hoje o nosso modesto jornal, continuando com a mesma orientação que tinha na epoca, em que, por certos motivos, suspendeu a sua publicação. O seu reaparecimento não traduz uma vaidade de quem hoje vem de novo á arena da imprensa. E antes, acima de tudo, o intento de fazer alguma cousa de útil e de bom em prol da Republica, que redimiu a nossa Patria, e da terra amada, que nos foi berço, que nos determinou a terçar armas no campo do jornalismo”.

Assumindo-se, inicialmente, como “Jornal Independente”, na edição nº 14, de 15.04.1913, proclama a sua filiação no Partido Republicano Portuguez, passando a ostentar no seu cabeçalho a designação de “Jornal Democrático”.

 

1ª Página da Edição nº 14

Justificou-se, assim, tal opção política:

“Terminou com a independencia que vinha sustentando desde a sua fundação e filiou-se no Partido Republicano Portuguez, que é o único partido que respeita e segue o velho programa que sempre norteou os bons republicanos, a nossa “Torre D. Chama”.

Tendencialmente quinzenal (algumas edições saíram atrasadas), o conteúdo do jornal oscilava entre questões de teor nacional, fruto da intensa luta política que o país vivia e à qual nem o nordeste transmontano permanecia indiferente e questões locais, de defesa da terra, registando ainda uma intensa participação de colaboradores, residentes noutras localidades, designadamente, no Porto e Bragança.

Relativamente às questões locais, reconhecidamente, por vezes esquecidas, destacamos os excertos de artigos, da edição nº 8, de 30.06.1911:

“Muitos amigos e leitores teem estranhado com palavras de justa censúra misturada de indignação que não tenhamos dedicado uns momentos de attenção, expressa n’este obscuro semanário, ao estado de abandono a que inflismente foi votada esta nossa amada terra (…)”.

“(…) esta terra só começou a conhecer a acção benéfica dos governos, quando esse homem de bem, grande patriota e eminente estadista Emídio Navarro trabalhou denodadamente, mesmo com sacrifício na imprensa, no parlamento e no governo pela construcção da estrada que todos os dias trilhamos e nos liga com Bragança e Mirandella”.

Dizia-se ainda que a apontada beneficiação trouxe

“(…) como consequencia logica, dedusida da nossa bella situação geográfica, mais dois importantes melhoramentos – uma estação telegrapho postal e uma corrida com o caminho de ferro, na estação de Mirandella”.

Referenciava-se ainda que “toda a região” reclama

“A creação d’uma comarca, ou pelo menos de um concelho que era de immensa e indisivel commodidade para nós e povos circunvizinhos, que ficamos, no melhor dos calculos, a 25 kilometros das sedes dos respectivos concelhos(…)”.

 

1ª Página da Edição nº 8

No mesmo artigo da edição nº 8 outros melhoramentos eram reclamados, mormente a conclusão da escola primária:

“(…) no largo da feira, mesmo à beirinha da estrada uma casa construída pelo plano Bermudes e não está concluida por faltarem os trabalhos de trolha e pouco mais, cuja casa disem é destinada a escola primaria dos dois sexos”.

A esta questão havia de voltar o Jornal, no seu nº 13, de 1.04.1913:

“Achava conveniente que muito respeitosamente se representasse ao Ex.mo Ministro do Interior para que se digne dar por findo o edifício para a instrução primaria, que á oito anos lhe foi dado começo e que até hoje não se acha dado ás funções a que ia ser destinado!”

Ainda no mesmo artigo do nº 8, manifestava-se preocupação em relação ao abastecimento de água:

“Fizeram-se promessas, consumiu-se rethorica e gastaram-se alguns cobres para se dar começo á canalização d’aguas que muito esta terra carece, mas, sempre o mas, ainda não foi levada a effeito e sabe Deus quando será”.

Noutro artigo da edição nº 8, intitulado “A’ Junta de Parochia”, escrevia-se:

“Lembramos que era de grande interesse para esta villa e para as povoações que nos rodeiam, representar ao Ex.mo Governador Civil, para ver se conseguiam a que as feiras denominadas as dos Santos e Reis, as mais importantes de todo o anno, tivessem mais um dia – 5 e 6”.

Esta assunto viria a ser relembrado no nº 9, após o período de suspensão da publicação:

“São decorridos dois anos e ainda essa representação se não fez! Porquê? Por que não quizeram. Eis infelizmente a verdadeira razão. (…)

Reuna pois a comissão parochial e resolva o assunto quanto antes, prestando assim um beneficio á Torre D. Chama”.

Ficam aqui outras referências a notícias locais:

Edição nº 11, de 1.03.1913:

Na primeira página é apresentado o programa da “Festa da Arvore”, “iniciativa altamente patriotica do «Seculo Agricola», promovendo a «Festa da Arvore», em todas freguesias do país”.

Edição nº 12, de 15.03.1913:

Na primeira página é publicado um extenso artigo sobre a “Festa da Arvore”, realizada em 9.03.1913, a cuja comissão presidiu o Dr. José Alves Ferreira da Silva, “ilustrado e integro medico municipal desta terra” e da qual foi vogal, o Padre Antonio Moás, “erudito abade desta freguesia”.

 

 

1ª Página daEdição nº 12

Edição nº 13, de 1.04.1913:

Sobre a vinda da Guarda Republicana à feira:

“Para assegurar a ordem da feira do dia 5, vieram para aqui fazer serviço, alguns soldados da Guarda Republicana. Bom será que continuem a vir por aqui em todas as feiras, para que as tranzações se efetuem á vontade”.

No mesmo número, anuncia-se a seguinte nomeação, como Regedor:

“Foi nomeado Regedor desta vila e tomando posse na semana passada, o nosso amigo sr. João Bernardo. Que saiba cumprir a missão de que está incumbido, são os nossos desejos”.

Edição nº 15, de 10.05.2013:

Dá-se conta que “Foi a Lisboa tratar de assuntos políticos, o nosso querido amigo sr. Antonio Bernardo Teixeira, chefe da estação telegrafo-postal e chefe do partido democratico desta vila”.

1ª Página da Edição nº 15

 

Edição nº 16, de 1.06.1913:

Sobre a greve nas Minas de Ervedosa:

“Ha dias foi declarada a greve por todos os operários das Minas de Estanho de Ervedosa. Encontram-se já ali, para garantir a ordem, uma força de 25 praças. No dia em que enviamos os originais para Mirandela ainda a greve não tinha sido solucionada, esperando-se no entanto que ela tenha uma breve solução com honra para os dois lados”.

Sobre projecções de cinema itinerante:

“Cinema-Paté. Está funcionando nesta vila o mais importante cinematografo que tem aparecido no nosso concelho. Tem exibido varias fitas de primeiro gosto, destacando-se entre elas a Vida de Cristo e a Guerra de Italia”.

 Relativamente às questões nacionais, destaca-se a edição nº 7, de 15.05.1911, em que é publicado um artigo sobre as próximas eleições, às quais se volta a fazer referência no nº 8, numa carta de um colaborador do Porto:

“Estão realizadas em todo o paiz as eleições para as Constituintes. (…)

A Revolução triumphante de 5 de Outubro, ficou agora sancionada pelo voto livre, expontaneo e unanime de toda a nação”.

Na edição nº 16, de 1.06.2013, num artigo intitulado “A Obra do Governo”, escreveu-se:

“A obra do actual governo, tão moralisadora, tão honrada e tão benefica para a Republica, demonstra o patriotismo de quem, sacrificando-se, o pratica e prova a pureza das suas convicções”.

No que concerne às participações de colaboradores, pela sua peculiaridade, destacamos a edição nº 7, de 15.05.1911, na qual é publicada uma carta de Bragança que anuncia que, no dia 10 de Maio, no Tribunal de Bragança, foi pronunciada a primeira sentença de divórcio:

“O mau é começarem… daqui a pouco é moda, e depois, caro leitor, depois… - le monde marche – todos hão de querer segui-la”.

Mas a mais importante colaboração, pelo seu interesse histórico foi, sem dúvida, a do Padre Francisco Manuel Alves (O Abade de Baçal), com a rubrica “A Torre D.Chama – Traços Historicos”, que iniciou na edição nº 9 e levou até à edição nº 14.

Pela sua importância e valor histórico, falaremos nestas páginas, oportunamente, sobre os conteúdos em causa.

Desconhecemos de que forma terminou a sua edição o Jornal “Torre D. Chama”, sabendo apenas que foi publicado, pelo menos, até ao nº 16, de 1.06.1913 (apenas tivemos acesso até esta edição), sendo certo que, em 21.03.1915, teve lugar a 1ª edição do semanário “Éco de D. Chama”.

Sobre o Jornal "Éco de D. Chama" falaremos na 2ª parte da “A Imprensa Torreense no Alvor Republicano”.